10.31.2006

Onde está o reformismo de esquerda do Governo PS? (II)


André Freire,Professor de Ciência Política (ISCTE), posseguiu ontem no Público a sua análise sobre o reposicionamento ideológico do PS. Publicamos aqui alguns excertos desse importante artigo:

"De acordo os neoliberais, quer o peso do Estado, quer as organizações sindicais constituem entraves ao livre funcionamento do mercado, logo reduzem a performance da economia. Porém, com um forte peso do sector público e fortíssimos sindicatos, as sociedades escandinavas, que estão entre as mais competitivas no actual contexto da globalização, evidenciam que, no mínimo, não há uma relação necessária entre aquelas variáveis.Segundo o European Industrial Relations Observatory, em 2004 os cinco países da Europa (UE25 + 3) com maiores taxas de sindicalização são a Suécia, a Dinamarca, a Finlândia, Malta e a Noruega: entre 90,8 e 72,1 por cento. Portugal (30,6) está a meio da tabela. Mais, quando comparamos as taxas de sindicalização da Europa (34,7) com o Mundo inteiro (15,0), somos obrigados a concluir que há uma correlação positiva entre a robustez do sindicalismo e o nível de desenvolvimento económico, social e político. Tradicionalmente, na Europa há uma forte ligação entre os sindicatos e os partidos políticos, sobretudo de esquerda. Isto é positivo, pois permite uma maior ancoragem social dos partidos. No célebre artigo sobre o "Partido Cartel" (Party Politics, 1995), Mair e Katz apontavam a redução da ancoragem social dos partidos como um dos factores da crise de representação no Ocidente.Fruto da democratização recente e da própria transição, o PS nunca teve uma ligação forte ao mundo do trabalho. Porém, não há nada de inelutável nisso.
(...)
Não sendo caso único, a situação a que temos assistido na educação não superior ilustra algum maximalismo dos sindicatos, mas também a ausência de uma estratégia do Governo para o relacionamento com eles, a não ser a hostilização, a apresentação de propostas sem contrapartidas e, finalmente, a retórica anti-sindical. A performance do sistema, bastante aquém do desejável, e a distorcida estrutura de carreiras (pirâmide invertida) evidenciavam a necessidade de mudanças significativas. Inicialmente, os sindicatos pareciam não ter percebido isto, tal era a resistência (pelo menos aparente) à mudança. Mas não sejamos maniqueístas.
(...)
Globalmente, a dualidade de critérios que o Governo tem usado em matéria dos ajustamentos que está a pedir aos portugueses (vide o meu artigo de 16/10), além de não ser correcta do ponto de vista da equidade, legitima a revolta daqueles a quem mais ajustamentos são pedidos.Uma coisa é o PS nunca ter tido uma forte ligação ao mundo do trabalho. Outra bem diferente é prosseguir uma estratégia de hostilização dos sindicatos e utilizar uma retórica anti-sindical, a contrario da sua tradição e mimetizando os neoliberais. Além de deixar passar a ideia de que os problemas de funcionamento do sistema decorrem sobretudo dos funcionários. Também neste caso temos que concluir que, se isto não representa um reposicionamento ideológico, então o que é?

Fonte da imagem: www.spn.pt

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